Texto Crítico/Critical Text

  1. O corpo, a cultura: duas montagens

    O trabalho artístico de Avilmar Maia toma os bonecos como material principal. O artista recolhe toda sorte de miniaturas para desmontá-las e recombiná-las: são supermans, peppas, mickey mouses, toy stories, barbies, além de outras figuras não nomeadas que, ao passarem por um intenso processo de montagem, fundem-se aos exemplares baratos das personagens mais conhecidas da indústria cultural encontrados pelo centro da cidade. A este processo o artista chama de “‘Pulsa’’, termo que intitula toda esta série de trabalhos com as miniaturas e nos remete, imediatamente, ao pulso, ou seja, ao ímpeto vital que ganha estes objetos a partir da destruição e sequente construção a que os submete o artista. Mas não só: posteriormente, procede-se uma segunda montagem, na qual as miniaturas são colocadas em cenas mitológicas - quando são abrigadas em uma caixa de acrílico - ou rebatizadas com nome de personagens das literaturas grega, judaico-cristã e moderna (que se origina da junção das citadas). Com isto, ao primeiro sopro natural, qual seja, o da pulsação sanguínea que dá vida a um corpo, é acrescido outro, o cultural, quando a reconfiguração da gestualidade das novas miniaturas remetem ou encenam passagens mitológicas fundadoras da cultura ocidental, o que é indicado, finalmente, pelas legendas que acompanham as obras.
    Vejamos um exemplo: "Gaia" é o nome dado à cena na qual o super-homem ganha a cabeça de uma Minnie, a versão feminina do rato Mickey. São, portanto, duas camadas de corte e montagem: na primeira as miniaturas, como se fossem colocadas numa mesa de cirurgia, são decapitadas. O boneco do corpo masculino, que funciona como metonímia da masculinidade ocidental, ganha a cabeça de uma ratazana antropomórfica - afinal, cristaliza no super-homem, como quer seu nome, o antropocentrismo aliado ao sexismo, no qual o super poder que permite a irrestrita dominação da natureza e o massacre do Outro encontra sua casa no corpo másculo de proporções simétricas. .......................

Este texto é uma parte do artigo de João Guilherme Dayrell - Pós-doutorando pelo Departamento de Letras da USP; doutor em Estudos Literários e Literatura Com
parada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Mestre em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)